quinta-feira, 27 de abril de 2017

OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES (continuação)

fonte: http://www.joaoanatalino.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1881903

Dos doze trabalhos a que Hércules foi submetido, apresentam-se aqui os ultimos trabalhos "decimo, decimo primeiro e decimo segundo":

10- Os bois de Gerião.

          Gerião, ou Gericom,era um gigante monstruoso, descendente de uma estirpe de monstros, que incluia a famosa e terrível Medusa, que era sua avó. Sua aparência era terrível. Possuía três troncos e três cabeças, que se bifurcavam logo acima dos quadris. Era dono de um imenso rebanho de bois vermelhos, que eram guardados por um pastor, também monstuoso, e um cão, da mesma espécie. Ele vivia numa ilha muito distante, além do Imenso Oceano.        
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    O significado iniciático dessa tarefa tem a ver com a missão do filho do homem, ou seja, a de resgatar, das mãos de um rei malvado, (que é o vicio), o rebanho sagrado (que é a humanidade). Por isso ele é o filho da luz, aquele que foi engendrado no seio da sua mãe virgem, sem o concurso de um pai terreno. 
        O filho do homem, por ter sido engendrado sem o concurso de um pai terreno é também o filho da viúva, já que teve que ser gerado pelo próprio Deus, pois que Ele não encontrou na terra um único “ homem digno’ para dar descendência a esse novo arquétipo. O homem digno, em conseqüência da queda, estava morto. Esse é um dos significados do simbolismo contido no expressão "filho da viúva," aplicada comumente aos maçons. 
        Essa expressão era utilizada nas antigas iniciações nos Mistérios Egipcios.  Filhos da Viúva eram todos aqueles que se iniciavam naqueles mistérios, pois eram todos filhos de Ísis, a esposa viúva do deus morto Osiris.          Na tradição da Maçonaria, a expressão "Filhos da Viúva" serve tanto para designar os Templários “órfãos” em relação á morte de seu “pai” , o Grão-Mestre Jacques de Molay, quanto os partidários dos Stuarts em relação á morte de seu rei Carlos I, decapitado pelo Parlamento. A viúva daquele rei teria organizado a resistência, sendo a maioria dos seus partidários constituídos de maçons.(7)
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         Filho da Viúva é também Jesus Cristo, cujo pai, José, morreu quando ele era ainda uma criança. Como Jesus consagrou Maria como Mãe de toda a Cristandade, os cristãos são todos, filhos da viúva. Filhos da Viúva, também, de acordo com outros autores, eram os filhos dos soldados cruzados que embarcavam para a Terra Santa e lá morreram em defesa da fé.
         Na dura empreitada a que se entrega, quantos não são os trabalhos, os perigos que tem que enfrentar o "filho da viúva"? Quantos não são os inimigos que se precisa vencer, quantas não são as próprias perdas que contabiliza? O filho do homem, (ou filho da viúva), é como o herói Hércules que sai da ilha de Eritia com um rebanho inteiro e perde pelo caminho mais da metade.. 


11- O cão de duas cabeças

          Este é, talvez, uma das tarefas de maior valor iniciático entre todos os trabalhos realizados por Hércules. Para realizá-la ele teve, inclusive, que iniciar-se nos Mistérios de Elêusis para aprender a entrar e sair com segurança do mundo dos mortos. Conta-se que Teseu, o herói de Atenas, e que tantas aventuras viveu ao lado de Hercules, foi levado para o Inferno (Hades), por conta de maquinações de seus inimigos e lá encarcerado vivo. A Hércules coube o encargo de invadir o mundo dos mortos e libertar o amigo. Guiado pelos deuses Hermes e Atena, o herói desceu ao Hades, enfrentando     
    A simbologia desse trabalho tem, como já se disse, um alto valor iniciático. Em primeiro lugar releva-se o fato de que o herói precisa iniciar-se nos Mistérios de Elêusis para aprender “ a entrar e sair do mundo dos mortos”. Nessa prática está resumida a mais profunda lição do ensinamento iniciático que é a catábase, (a morte simbólica, a descida ao túmulo, a volta ao estado inicial de matéria amorfa, o mergulho no subconsciente), e a anábase , que é a subida, a ascensão, o vôo para a luz, a ressurreição, a aquisição de um estado superior de consciência, o auto conhecimento, conforme expresso no Oráculo de Delfos, e que se constitui na máxima que resume toda a filosofia: “ conhece-te a ti mesmo”.
         Por isso, a tarefa hercúlea, representada pela descida do herói aos infernos, para ali recuperar seus amigos, ainda vivos, é bastante significativa. Esse é, efetivamente, o trabalho do iniciado, o trabalho daquele que, através da prática iniciática, encontrou o auto- conhecimento e aprendeu a entrar e sair do mundo da inconsciência, onde medram todos os monstros, fantasmas e demônios, que constantemente sobem á superfície para nos desviar de nossos caminhos. 
                É, aliás, para isso que serve prática iniciática, e essa é também a função da verdadeira fé. Os iniciados devem estar dispostos a arrostar mesmo os perigos do inferno quando se tratar de socorrer, de resgatar seus irmãos que estiverem lá acorrentados e que por suas próprias forças não conseguem se libertar. E não pode temer os monstros que encontrará, os perigos que terá que enfrentar, nem dificuldades que terá que superar. E, como o herói da lenda, muitas vezes terá que conviver com a decepção de ter que devolver aos infernos os troféus que de lá resgatou. É que o destino das pessoas e o controle dos acontecimentos não está, na verdade, nas mãos dos homens, mas pertence unicamente ao Grande Arquiteto do Universo. Mas, ainda assim, o herói, como o maçom, jamais poderá furtar-se de cumprir sua missão, pois para isso foi escolhido, para isso foi submetido a uma iniciação.


12- As maças douradas do Jardim das Hespérides.

      Os trabalhos de Hércules não podiam terminar de ouro modo. Essa tarefa simboliza, na verdade, a apoteose final de toda cadeia iniciática. Representa a aquisição do conhecimento, do símbolo da ciência, da Gnose final, capaz de dar ao iniciado aquele estado superior de consciência, que buscou desde o inicio quando iniciou a sua escalada, a sua “subida pela Escada de Jacó”. 
       As maçãs douradas do Jardim das Hespérides eram os frutos sagrados que Hera, a esposa de Zeus, dele recebera por ocasião de suas núpcias. Ela os plantou num jardim lá pelos lados do extremo ocidente, próximo do local onde o gigante Atlas escorava a abóbada celeste em suas costas.   (...)
    
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             Não é preciso especular muito para se interpretar esse grandioso mito. Na verdade, na simbologia comum da maioria dos povos, a sabedoria tem sido comparada a frutos de ouro, guardados ciosamente pelos deuses. E os homens nunca deixaram de cobiçá-los e tentar se apropriar deles. A própria Bíblia se utiliza desse símbolo para dar a entender que o pecado que causou a queda do homem foi ao fato do casal humano ter comido, indevidamente, o “ fruto do conhecimento do bem e do mal” que Deus plantara no Jardim do Éden. Ora, a diferença entre os mitos bíblico e grego é apenas de forma. Ambos, porém, simbolizam o desejo do homem de adquirir a Gnose, ou seja, o conhecimento total das causas que possibilitam a vida do universo, para que, de posse desse conhecimento, possa controlar e administrar seus efeitos. 

       Esse, entretanto, é um atributo que só é permitido aos deuses. Não obstante, o homem enfrenta todas as adversidades, todos os perigos, enfrenta mesmo os próprios deuses para obter essa sabedoria, mesmo que, após tê-la adquirido, não saiba o que fazer com ela, como aconteceu com o rei Eristeu. 
       E aqui que o mito aparece na sua mais profunda significação. Hércules lutou e obteve os pomos dourados a mando de Euristeu, isto é, não por força de uma predisposição de espírito dele mesmo, mas sim, em razão do desejo profano de alguém que quis apropriar-se desse atributo sagrado apenas por concupiscência.      
       As tradições iniciáticas estão cheias de conselhos sobre esse desejo insano de apropriar-se desse fruto sagrado, que é a Gnose, o supremo conhecimento, apenas pelo desejo de poder ou por simples curiosidade. Não se assalta o céu para roubar o tesouro dos deuses. Esse tesouro só pode ser adquirido por quem sabe o que fazer com ele. É ele é dado voluntariamente pelos deuses áqueles que dele se fazem merecedores. 
        Hércules obteve os pomos dourados e os entregou ao rei. Este não soube o que fazer com ele por que deles não era merecedor. Por isso é que a Gnose não pode ser obtida academicamente a partir de um curriculum de logias desenvolvidas didaticamente. A Gnose é fruto de uma longa escalada iniciática. Esse é talvez, o grande erro que a Maçonaria, como instituição, tem cometido ao longo dos séculos. É que, para atender a objetivos simplesmente profanos, como o são os interesses políticos e pessoais de seus membros, tem admitido em seus quadros pessoas não qualificadas para perseguirem os objetivos da Ordem. Esses iniciados entram para a Confraria, mas jamais alcançam, ainda que subam todos os graus da Escada de Jacó, a verdadeira sabedoria. 
       
Notas

(1) André Michel de Ransay, nobre francês, maçom famoso,que no início do século XIX, divulgou a maçonaria em vários países da Europa.
2- Erich Fron- A Linguagem Esquecida - Ed. Pensamento.S.Paulo, 1987
3- Idem,
4- Idem
5- Ibidem
6- Gerard de Nerval, compositor Francês do século XIX
7- Veja-se a nossa obra Conhecendo a Arte real, Ed. Madras,SDão Paulo, 2007
8- Jean Palou- Maçonaria Simbólica e Iniciática, Ed Pensamento, São Paulo, 1984

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