quinta-feira, 27 de abril de 2017

OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES 
(continuação) fonte: http://www.joaoanatalino.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1881903 

Dos doze trabalhos a que Hércules foi submetido, apresentam-se aqui os trabalhos "sétimo, oitavo e nono":

  7- O touro de Creta - O sétimo trabalho de Hércules foi sua vitória sobre o terrível touro de Creta. Esse animal fantástico tinha sido enfeitiçado pelo Deus Possidon, para castigar o Rei Minos, de Creta, por este não ter cumprido sua promessa de sacrifica-lo em sua homenagem.

 - O touro simboliza a força e a violência que devem ser conquistadas pela razão e a sabedoria. Muitas vezes os homens deixam de cumprir seus deveres e, em conseqüência, atraem sobre si e a sociedade em que vivem, os males da violência e do crime, que nada mais são que a pretendida realização das nossas necessidades e desejos da forma mais vil. Essa alegoria nunca foi mais bem empregada do que nos dias atuais em que assistimos ao aumento da violência de uma forma tal como nunca se viu antes. E tudo isso, na nossa opinião, é motivado pelas péssimas condições sociais em que vive o nosso povo, cada vez mais incapacitado de obter, por meios normais, as coisas que necessita para viver. E assim, ao se encontrar cada dia mais pobre, e pressionado por uma mídia que o incita ao consumo, parte ele para a violência, tentando obter, á força, aquilo que não conseguiu através do trabalho honesto.

  8 – As Éguas de Diomedes - Diomedes era rei da Trácia. Possuía quatro éguas (Podarga, Lampona, Xanta e Dina), que se alimentavam de carne humana. Eristeu encarregou Hércules de acabar com essa prática selvagem e trazer as éguas para Argos.

 - Esse mito simboliza o fato de que na vida humana há muita perversidade. Há homens que devoram outros para satisfazerem seus instintos mais vis. Os perversos, quando vencidos, morrem por si mesmos, destruídos pelos próprios inimigos que criou, ou por outras feras iguais a eles. Mas nesse processo ocorre também a morte da beleza, da inocência e da pureza simbolizadas pela rainha Alceste. O trabalho do iniciado é resgatar desse tipo de “ morte” moral , as pessoas boas e puras que são vítimas dessa perversidade.

  9- O Cinturão da Rainha das Amazonas. - Hipólita, rainha das temíveis guerreiras amazonas, ganhara do Deus Áries um cinturão mágico que lhe conferia enorme poder. A filha do rei Euristeu, que também era sacerdotisa da Deusa Hera, exigiu que Hércules obtivesse para ela o cinturão de Hipólita.

 - São várias as interpretações desse trabalho de Hércules, algumas das quais, inclusive, já renderam especulações da mais alta envergadura intelectual. Na conclusão extremamente chauvinista de Paul Diel, por exemplo, as “ amazonas são mulheres assassinas de homens”, ou seja, são o tipo que buscam substitui-los em tudo, deles não necessitando para mais nada, além do prazer sexual.

A esse tipo de mulheres deve o herói oferecer combate, pois representam a concupiscência que prejudica a evolução do espírito.(...)
 - Na verdade, porém, o ensinamento iniciático que o cinto de Hipólita encerra é que esse cinto é representativo de poder. Quer dizer que os gregos antigos acreditavam que o poder da mulher era exclusivamente fundamentado na sua capacidade de procriar e dar prazer sexual. O cinto é uma alegoria, representativa da função sexual feminina. Conquistá-la, dominá-la, era condição para que o iniciado pudesse prosseguir na escalada para o seu aprimoramento espiritual, já que jamais poderia fazê-lo sem que sua descendência estivesse garantida e sua satisfação sexual normalmente satisfeita. (...)
- Nossa tese é a de que esse trabalho de Hércules não pode ser interpretado, abstraindo todas as aventuras que o herói viveu até obtê-lo e entregá-lo á sacerdotisa da deusa Hera. Na verdade, além dos aspectos psicossociais, políticos e iniciáticos apontados pelos autores acima citados, existem outros, de ordem moral, sociológica e histórica nesse mito, que merecem ser comentados ainda que de passagem. Quanto aos aspectos morais, no que importa aos ensinamentos do grau, entendemos que ele evoca a prática de diversas virtudes, sem as quais ne-nhum aprimoramento pessoal é possível. O primeiro, sem dúvida, está ligado ao comportamento sexual do individuo. (....)
 - Não existe vida humana sem atividade sexual, não há continuidade de existência sem reprodução assexuada. O sexo não pode ser tratado, portanto, como mera atividade lúdica, destinada simplesmente á obtenção de satisfação física. E nesse sentido, a mulher que procura a dominação, que utiliza como arma para aquisição de poder material, esse sagrado atributo que é a capacidade de procriar, utiliza indevidamente uma faculdade que lhe foi dada pelo Criador. Isso faz do sexo um elemento de discórdia na humanidade, quando deveria sê-lo de união.
 - Essa questão precisa bem entendida para que não inspire entendimentos equivocados. É sabido que entre a elite da Grécia antiga, por exemplo, o homossexualismo era um comportamento comum. Não temos elementos para comprovar nossa dedução, mas acreditamos que a própria visão dos filósofos gregos a respeito das mulheres e das questões sexuais justificam esse fato. Na verdade, como bem viu Bachofen, as culturas que emergiram a partir da reorga-nização dos povos, ocorrida após o Dilúvio, são conseqüências da vitória do patriarcado sobre o matriarcado. A mulher, no inconsciente dos homens, a partir daí, sempre apareceu como uma espécie de inimiga que é preciso manter sobre rigoroso domínio. Não só a cultura grega, como também a própria cultura hebraica, nos dá uma mostra desse preconceito irracional contra a mulher, a julgar pelas próprias crônicas bíblicas.
A tese de Bachofen, por sua importância na interpretação desse tema, justifica a síntese que nos propomos a fazer abaixo:
 - Bachofen, interpretando o mito de Édipo, reconhece a supremacia feminina no processo genealógico humano. Pelo fato de somente a mãe deter a certeza da origem de um filho, num passado ainda não devidamente recenseado pelos historiadores, as mulheres teriam exercido a supremacia social e familiar, sendo também sacerdotisas e chefes militares. Foi, portanto, o primado do Matriarcado, cuja memória ainda persistia na consciência dos povos quando a história começou a ser escrita.
 - É a partir dessa data que as divindades supremas começam a ser representadas por figuras masculinas, o que coincide com o surgimento das religiões monoteístas do Oriente e o começo da deificação dos heróis na Grécia. Essa luta entre matriarcado e patriarcado transparece na composição para diversos mitos gregos, como a luta de Hércules contra as amazonas, e é também, o ponto central da famosa tragédia de Ésquilo, Oréstia. (....)
 - A tese de Bachofen opõe claramente dois elementos culturais: matriarcado e patriarcado. Mas releva também suas diferenças. Enquanto o matriarcado destaca os laços de sangue, o vinculo do homem com a natureza, o saber intuitivo, uma relação de fundo mais sentimental com o universo, o patriarcado impõe uma noção de vida alicerçada na razão, na força, na dominação. É uma visão de conquista, de superação do ambiente, em vez de cooperação e participação, de integração a ele como elemento próprio e não como seu dominador. - Bachofen conclui que a vitória do patriarcado instituiu também na cultura humana o sentimento de diferenciação, de identificação e de qualificação, pois enquanto o matriarcado considerava todos os homens iguais em virtude das mesmas condições de nascimento, sem distinção de qualquer qualidade entre eles, o patriarcado valorizou a autoridade, a diferença provada pela qualidade individual, a hierarquia encimada pelos melhores. - O amor materno não é somente mais terno como também mais geral e universal... Seu principio é a universalidade, enquanto o principio patriarcal é o das restrições...
 - A idéia da fraternidade universal do homem tem suas raízes no principio da maternidade, e justamente essa idéia se desvanece com a formação da sociedade patriarcal. A família patriarcal é um organismo fechado e limitado. A família matriarcal, pelo contrário, possui aquele caráter universal com o qual se inicia toda evolução e caracteriza a vida materna, em combinação com a espiritual imagem da Mãe-Terra, Démeter. O ventre de toda mãe dará irmãos e irmãs ao ser humano, até que, com o estabelecimento do principio patriarcal, essa unidade se dissolve e é suplantada pelo principio da hierarquia. " (...)
 - Nas sociedades matriarcais," diz ele, " esse princípio encontrou expressões freqüentes e até mesmo formuladas legalmente. Ele é a base do principio da liberdade e igualdade universais que constatamos ser um dos traços básicos nas culturas matriarcais... A ausência de desarmonia interior, um anelo pela paz...uma benevolência terna que ainda podemos ver na expressão facial de estátuas egípcias que impregnam o mundo matriarcal... "(5)
 - A análise de Bachofen comporta, como se vê, uma defesa apaixonada do matriarcado, implicando numa valorização social e política da mulher, não só como companheira e coadjuvante, como querem alguns intérpretes da Bíblia, mas sim, como sócias majoritárias de um processo que envolve o surgimento, a manutenção e o desenvolvimento da sociedade humana. Para o catecismo maçônico, conforme entendemos, essa visão tem profundas implicações morais. Conquistar o cinturão de Hipólita implica, não na destruição do poder feminino, mas sim, na sua sacralização A partir da valorização da família, o respeito á mulher e a sua devida apreciação, como elemento mais importante do processo genético que garante a vida da humanidade, se recompõe a justiça e se elimina um preconceito comum, alimentado, inclusive em certos meios maçônicos, que vê a Fraternidade dos Obreiros da Arte Real como um círculo de interesses exclusivamente masculinos.
 - O fato de a Maçonaria ser uma congregação essencialmente masculina tem raízes históricas, derivadas principalmente de suas influências filosóficas (herméticas), e militares (cavalarianas especialmente), mas não comportam elementos de preconceito contra as mulheres. A Maçonaria não é apenas um conjunto de irmãos que se reúnem num local chamado Loja. A Loja são os irmãos e suas famílias, suas esposas, filhos e parentes. O homem está na mulher como a mulher está no homem. Não há qualquer evolução possível em caminhos separados, em divisões de virtudes específicas para um e outro sexo. Não cabe exclusividade aos homens em relação á certos atributos, como força, segurança, competência para comandar etc. nem as mulheres são mais capazes de desenvolver o lado sutil do psiquismo humano. Ambos tem qualidades e atributos que se completam na união dos sexos.(....)

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